terça-feira, 13 de outubro de 2009

Epílogo

Não há mais leitores,
não há mais mensagem,
não há mais eu-lírico,
não há mais poesia.

Só há ausência.
Só a ausência.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

No fim, restou o verbo

Ela foi – mas não voltou.
Ela foi – mas não é mais.
Ela foi. Ela se foi.
Polissemia verbal para explicar o abandono.
Acrobacia literária pra retratar a solidão.
Mas é feliz aquele que traduz em poesia sua dor.
Em certas noites, até consegue sucumbir ao sono.
Em algumas, consegue até subjugar o amor.
Chega mesmo a crer que sua vida não se resume em “paixão”.
É feliz, ao menos no instante em que expurga sua dor.
Mas neste instante, não.
Ela se foi. E não volta mais.
Mas neste instante, não.
Ela se foi. Ela se foi.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os dois: ela, uma lindeza de Geração Y; ele, um New Wave temporão

Disse ele: eu mando os mesmos versos para um bando de garotas, eu mesmo faço as manchas de batom na minha roupa...
Disse ela: ah, tá; então você acredita que vai conseguir me conquistar recitando Léo Jaime no Twitter?
Disse ele: (...)
Disse ela: (...)?
Disse ele: Então... mas quando eu vejo um broto e digo agora é pra valer eu sinto meus dentes batendo e meus joelhos a tremer...
Disse ela: Você prestou alguma atenção no que eu disse na Direct Message?
Disse ele: Xi, já vi que queimei meu filme, né? Eu sempre enfio o pé na lama...

sábado, 19 de setembro de 2009

Com “O pai dos burros” à mão, dei uma de inteligente, veja só...

“Para mim, este seu livro é a exata inspiração de como não devo escrever”. Num olhar inicial, a frase parece ser a pior para um pretenso escritor iniciar um papo com um autor consagrado no lançamento de mais um livro. Felizmente, a manhã de autógrafos de O pai dos burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas – (Humberto Werneck. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2009, 208 páginas) que acaba de acontecer na Livraria Scriptum, em Belo Horizonte, foi a exceção. Werneck confeccionou um dicionário com tudo aquilo que não se deve escrever, seja no exercício de profissões como jornalismo e literatura, seja no dia a dia de qualquer pessoa que deseja comunicar algo de forma efetiva, sem perder parte da significação própria de sua fala para um imaginário previamente constituído. “Não se trata de cavalgar O pai dos burros e partir em uma cruzada contra os inimigos de alguma Ortodoxia Estilística. O que se quer com este livro é apenas recomendar desconfiança diante de tudo aquilo que, no ato de escrever, saia pelos dedos com demasiada facilidade”, pondera o autor na contracapa. “Porque nada de verdadeiramente bom costuma vir nesse automatismo”, alfineta.

Quem me conhece, sabe que manhãs, tardes ou noites de autógrafo não são meu forte — costumo não só retomar, mas estrear gafes inimagináveis, coisa surpreendente até mesmo para um cara tão experto em mancadas como eu. Pois, disposto a comprar o livro –meu real objetivo ali, apesar da cara boa dos quitutes – e sair ileso de vergonhas, planejei entrar mudo e sair calado (A página 129 d’O pai dos burros não me permite publicar o trecho sem o tachado). Por sorte, ao contrário de no lançamento de Pássaros de vôo curto, de Alcione Araújo, desta vez a própria vendedora anexou um bilhetinho ao livro com meu nome. Ou seja: não precisaria abrir a boca nem para dizer “Ewerton; meu nome é Ewerton” a Werneck.

Mas não adiantou. Werneck perguntou o que eu fazia e, ao ouvir a palavra jornalista, iniciou um papinho básico. No entanto, para minha surpresa, saí-me bem. Em seguida ao “sou jornalista”, também respondi “Link Comunicação” e completei, eu mesmo assustado com o fato de sujeito e predicado ocuparem os seus devidos lugares em minhas frases: “não atuo em nenhum veículo. Trabalho mesmo é com comunicação corporativa, assessoria de imprensa, essas coisas...”. Surpreendido com minha eloqüência, ainda me permiti uma pilhéria: “mas não é por isso que não preciso estar atento aos clichês, né mesmo?”.

No momento seguinte, ao pegar meu livrete assinado e perceber que real e inexplicavelmente tinha escapado do imbróglio, não pensei duas vezes: corri para o meu corsinha e bati em disparada para casa. Já no carro, folheando o dicionário no sinal fechado, só então me lembrei da frase que havia ensaiado para o evento. “Para mim, este seu livro é a exata inspiração de como não devo escrever”. Bem, nem tudo é perfeito (e essa censura é por minha conta). E, em um olhar mais demorado, dá para ver que gafe aconteceria é se eu tivesse da frase lembrado: demais insólita para uma manhã de sábado. Por fim, se a construção não serviu para o gracejo, ao menos serviu bem para abrir este texto. E para ser assunto para eu encerrá-lo, pudera.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

No e-mail. João até tenta. Mas o Zé, coitado... Você sabe, né? O Zé é o Zé...

Olha, vou te falar a verdade, e a verdade é que é sem chance. Entre eu e o Zé, é só amizade mesmo. Quero dizer... isso no máximo, né, que nem precisa...”.
Ao ler tal frase, João só teve um pensamento.
Desta vez, nem que me torturem eu conto pro Zé que ele tomou mais um fora. Prefiro o Trabalho de Sísifo de ter que arranjar outra garota para ele, a toque de caixa, do que ver aquela cara aguada de novo”.
E foi o que João fez. Chegou calado, amigamente dissimulado e, desentendido que só, desconversou do e-mail, já imaginando como faria para arranjar mais uma pretendida para o inarranjável Zé.

Mas o Zé, coitado, vendo a dificuldade do amigo em tentar preservá-lo da dor, pulou etapas e prostrou-se direto ao ponto.
Precisa se preocupar não, João. Está tudo bem. Eu já sei que rodei de novo”.
Como assim, Zé? Quem te falou isso, meu amigo? Não é assim não...”.
Preocupa não, moço. É a menina, que muito preocupada com você não me falar ipsis litteris a dispensa, ligou aqui. Bacana da parte dela se dar ao trabalho. Achei é que não precisava do tal de 'no máximo', né, João?”.
Pobre Zé. Minutos atrás, atendeu a ligação achando que fosse o João com boas novas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Joguei tudo na lata e bebi, bebi, bebi...

Na empolgação de uma visita até certo ponto repentina a Montes Claros, descobri meu lado Tom Cruise. Engana-se, é óbvio, aquele condescendente que antecipa que tal descoberta tenha a algo a ver com estética ou mesmo com meu relacionamento com garotas. Não fosse o fato de eu estar vivendo um momento em que me mantenho — por motivos e de formas impublicáveis — intencionalmente distante dos encantos femininos, ainda sim é notório que o Cruise não chega a meus pés (a quem possa interessar: o trecho anterior contém altos índices de ironia).

Quando falo em Tom Cruise — explico — estou me lembrando de um enlatado clássico e breguinha que marcou as tardes das infâncias de muitos de nós: Cocktail. No filme, Cruise é um badalado preparador de drinques — badalação que, a bem da verdade, ele só reverte em pegação desenfreada. Pois eu vivi meu momento Tom Cruise nessa curta viagem (sem a parte “desenfreada”, é bom que se diga, já que, além do que sugiro no primeiro parágrafo deste texto, ainda estava na companhia de apenas quatro cuecas na ocasião), e confesso, sem falsa modéstia: os aprendizados de meu tempo de menor aprendiz, quando fiz, adolescente, cursos de garçom e barman, enfim valeram de alguma coisa. Se nunca trabalhei em tais profissões, ao menos tive o embasamento para criar, no auge de meus 27 anos, não um drinque, mas sim “o” drinque. Aquele que colocaria qualquer Cosmopolitan, Daiquiri, Manhattan ou até mesmo a minha amada Caipirinha no chinelo, de forma a fazer qualquer Ivo Faria, Claude Troisgros ou Rodrigo Fonseca exclamar: “é esse o drinque que quero servir como aperitivo de meus pratos!”.

Aí é que está. Como as coisas quase nunca são simples, você deve ter percebido que eu opto pelo futuro do pretérito, e não pelo do presente, no trecho acima. Isso porque — frustração — temo que nunca mais venha a conseguir repetir a receita. Dela conheço plenamente os ingredientes, mas me falta um detalhe para preparar novamente a bebida: a inspiração para compor tal mistura, algo que só consegui alcançar devido ao nível alcoólico absurdo a que cheguei em Montes Claros — nível ao qual, pelo bem de minha saúde, não pretendo voltar tão cedo. Trocando em miúdos: não tenho nem ideia do quanto do que o drinque leva. Só sei o que leva: vodka preta (verde, na verdade — você também fica meio daltônico quando bebe?), vodka branca, run Montilla, Schweppes Citrus, refrigerante H2O sabor limão, energético e gelo. Tudo jogado — nem batido nem mexido — e preparado em uma lata de Skol 473 ml aberta com uma faca (isso é dispensável, claro).

Sei, apenas, que é menos vodka preta do que vodka branca, pois como a preta era muito cara, eu fiquei com mixaria. Lembro também que tinha muito energético e pouco Citrus (contenção necessária: havia uma lata de 473 mililitros de energético e apenas um restinho de Schweppes velho na geladeira). H2O, Montilla e Orloff, havia bastante... gelo era pouco, mas roubei algumas pedras dos copos de Cuba da galera (tem coisa mais chinfrim que Cuba Libre? A mi no me gusta, y a ti tampoco, creo...), então não sei direito. Acho que, para repetir a façanha, só mesmo seguindo na base da tentativa-e-erro. Alguém aí anima de ser minha cobaia? Penso que, se por um lado o voluntário pode sofrer ao ter que experimentar misturas não tão bem balanceadas, por outro lado ele será o primeiro a provar, junto a mim, o néctar original quando eu finalmente recuperar minha criação...

Bem, o convite está feito. Os Engov de antes eu garanto. O voluntário se arranja com os de depois.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Poesia da interrupção

Interrompo agora tudo o que já aconteceu
para começar do zero o que está para me apaixonar.
Na iminência do "logo após", não quero saldos
tampouco dever alguém.
Quero apenas de tudo me livrar.

De tudo, nada mais me importa,
Nada mais é meu.

Nem eu mesmo sou mais meu.
Nem eu mesmo
eu já não quero.
Quero apenas isso que vai para além de mim,
isso que sobra quando eu me ignoro,
isso que falta quando eu insisto em me procurar no espelho.

Apenas isso vai comigo. E, no máximo; e, talvez nem isso.

Quero apenas de tudo me livrar,
quero apenas chegar lavado ao próximo instante.

Ora,
não levo flores nem velas,
não quero sonhos nem cores,
desdenho as rimas e elas,
não levo a lembrança nem nada que remeta ao que já existe agora.

Tudo o que é resto fica aqui,
e se eu precisar sofrer que assim seja,
e tudo o que é resto fica para trás.
Afinal isso nem mesmo é uma poesia afinal
(e se eu precisar sofrer que assim seja)
isso nem é mais hora de pensar em nada afinal
tudo isso que já existe é resto

E o resto, afinal, eu já não quero.
E o resto, afinal, eu já não quero.

E só existirá aquilo que
daqui a instantes
passarei a chamar
simplesmente de você.

Você.

Daqui a instantes.
Daqui a instante.
Expectativa boa.
Mas também a ânsia fica para trás.
Em segundos, apagão total.

Vocês me contam o que vai ser.
Apagão tot

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Temos que arranjar outros animais dos quais falar

Tenho umas coisas para falar sobre a Influenza H1N1, mas este é um blogue de literatura. E aí? Será que dá para unir prosa e gripe em um texto só, assim como fez com gripe e poesia o Nassif em seu blogue? Sei lá. E, em face do calor infernal que hoje acomete Belo Horizonte e do fato de hoje ser sexta (minha preguiça se acentua considerável e inexplicavelmente nas sextas), creio que não. Mas cabe tentar, pois a paradeza do dia é a oportunidade perfeita para eu atualizar esse lugar, já por demais abandonado, mesmo que seja com um insucesso.

De início, rememoro o texto que escrevi, em julho, sobre a gripe. Na época, fiz coro com o time dos que criticam a cobertura alarmista que a mídia vem fazendo da doença — assim como rotineiramente faz de qualquer outro assunto passível de ser alardeado e capitalizado. Pois bem. Continuo com o coro, e reitero o artigo de Luiz Antonio Magalhães, Editor Executivo do Observatório da Imprensa, que exemplifica, com uma matéria da Folha, o equívoco que é a cobertura que a mídia faz do caso.

Acho legal também citar o site da OMS, onde um texto do dia 28 de agosto detalha, em má tradução minha, que “o intenso controle do vírus, realizado por uma rede de laboratórios da OMS, mostra que em todos os lugares o vírus se mantém praticamente idêntico. Os estudos realizados não têm detectado nenhum indício de que o vírus tenha mudado para uma versão mais virulenta e letal”. Ou seja: para a frustração dos pauteiros, é provável que a tendência descendente dos índices de contaminação continue no mesmo caminho.

Para finalizar, entro no mérito do futebol, já desistido de fazer (boa) literatura aqui. Vou de piadinha que é melhor. Vocês conhecem a nova do porco no ponto mais alto de uma árvore? Você olha para a cena e pensa: “mas o que esse porco está fazendo no topo dessa árvore?”. Em seguida, avança: “Mas como é que esse porco foi parar lá em cima?”. E, por fim, decreta: “Ah, mas uma coisa é certa: uma hora ele cai dali”. Na versão original (se é que existe versão original para domínio público), o porco era uma vaca-galo. Mas eu, como bom e habitualmente cético atleticano (sabedor de que vacas-galo não existem), mudei o personagem principal. Contudo, apesar de todo o meu esforço criativo, tudo indica que esse porco, especificamente – ao contrário do da gripe –, tem asas, no mais louco realismo fantástico, e já está voando copa acima na literatura futebolística. Para a tristeza dos – eu honrosamente incluído – milhares de atleticanos que, no primeiro semestre deste ano, tiveram a ousadia de se permitir acreditar na fantasia.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009