domingo, 21 de outubro de 2007

A entrevista que nunca fiz

Já perdi a conta das vezes que limpei a tela do Word. Acho que vou seguir o conselho da professora e escrever automaticamente, sem pensar. “Não analisa, não”. A verdade é que, com sua morte, minha literatura também está morrendo, e não sei o que fazer. As palavras, o sonho de me tornar um escritor escapa pelos dedos, e nem os deslumbramentos que tenho com as teorias apreendidas na escola de jornalismo me inspiram a pesar os dedos sobre o teclado. Sim, Fernando Sabino morreu. E se “tudo neste mundo no fim da certo”, como uma vez disse Seu Domingos, o pai do escritor, alguma coisa ainda fica sem explicação na existência humana, pois tudo parece errado, e está difícil acreditar que ainda não é o fim.
Até descobrir Fernando Sabino, aos 15 anos, minha adolescência foi a mais comum. Eu era narigudo, deprimido, anti-social e sem auto-estima. Era o padrão adolescente. Contudo, sempre fui mais inteligente que a média, e apesar de nunca ficar em sala de aula eu sempre tirava notas muito boas quando nelas ia — e eu só ia em dia de prova, ou quando a biblioteca estava fechada. Vale dizer que, no Brasil, se dá bem em escola pública quem é inteligente, pois aprende sozinho. Quem depende dos professores para aprender sai do Ensino Médio como entrou: só muda a quantidade de espinhas e hormônios.
Na biblioteca da escola descobri os livros de Fernando Sabino. Procurando lugar para me esconder do coordenador de turma — que invariavelmente estava a me procurar pelas quebradas do colégio — não custou para que eu visse naquele local e em seus livros o refúgio para minhas inquietudes adolescentes. Eu que já descobria, àquela época, minha vocação para “puxar angústia”. Aquele lugar se tornou então o meu lugar.
A bibliotecária era uma dona velha, feia e enrugada, que mais parecia estar morrendo. No começo me olhava meio torto — não sei se em resposta a eu olhar torto para ela, se por seu olho ser torto mesmo, ou por achar que eu pudesse roubar algum de seus livros. Talvez pelos três motivos.
Aos poucos, no entanto, parece que fomos nos familiarizando um com o outro, e com o passar do tempo nos tornamos amigos. Por fim, eu já a tinha como minha cúmplice naquele meu crime literato.
Foi ela que, em um de nossos primeiros contatos, tomou-me pela mão, e me levou até uma prateleira com um grande F, bem ao fundo da biblioteca. “Você vai gostar deste livro”, eu ouvi, enquanto a via tirar da estante — com a destreza de quem sabia a localização exata de cada um daqueles milhares de livros — um exemplar de O Menino no Espelho.
Foi meu primeiro contato com Sabino, e o título me seduziu imediatamente. Para mim, naquela época, nada seria mais importante que desvendar aquele menino que eu via todas as manhãs ao escovar os dentes diante do espelho — e que eu achava feio, chato, gordo, magro, chorão, indecifrável; que não era eu, e sim outro, como no espelho de Fernando, a bagunçar com toda a minha vida.
Tudo começou a se transformar naquele instante, e a cada página virada mais eu me encontrava. Pode parecer bobagem a um adulto que tenha se deixado envelhecer com o avançar da idade — ao contrário de Sabino, que “nasceu homem, morreu menino” — mas na insegura adolescência, saber que não se está só em suas amarguras e incertezas é o que há de mais valor, e o mais difícil de se conseguir. Naqueles livros eu descobri segurança, e compreendi minha solidão.
Ler Fernando Sabino era como ler sobre minha própria vida. Mal respondia a chamada em sala e pedia licença para sair, resmungando uma desculpa qualquer. Eu atravessava correndo o colégio como que a fugir da censura, que na época de Sabino não se fazia velada como se faz hoje, e quando ganhava as prateleiras da biblioteca era como se enfim eu conseguisse a tão sonhada liberdade.
Assim foi por todo o Ensino Médio. Eu lia suas crônicas na biblioteca, em sala, no ônibus, na cama, no recreio, andando, almoçando. Eram comuns as noites que pegava no sono com o livro ainda nas mãos, a repousar sobre o colo.
***
Há algum tempo eu, uma professora e minha faculdade planejávamos uma entrevista com Sabino. Eu via um sonho se concretizar. Decidi bancar minha ida ao Rio para encontrá-lo, e negociava com Patrícia, uma sobrinha de Fernando, um encontro, que infelizmente não chegou a ser marcado — dias depois ocorreu a fatalidade.
Minha vontade foi de ainda sim ir ao Rio, e perguntar aos ventos, entre lápides do São João Batista: “Como é que você me morre assim, meu amigo, sem me avisar, sem me conhecer, sem me dar a chance? E agora, quem vai me dizer se você e Carlos realmente subiram no Santa Teresa ou se foi tudo invenção literária? Quem vai ler e responder com elogios minhas cartas como Mário de Andrade uma vez fez contigo? Quem vai me dizer como se faz, cara?”.
Triste, reli O Encontro Marcado esses dias, e fui tão fundo quanto quando o li pela primeira vez, cinco anos atrás. O livro conta uma vida inteira, e em cada fase da vida, ao lê-lo, ele se mostra um livro diferente, capaz de elevar o espírito a uma sensação completamente nova. Talvez este seja um dos segredos que tornam mágica a sua literatura.
Apesar de ter representado tão bem as angústias de uma geração, como muitos gostam de dizer, talvez sua obra prima não deva ser caracterizada assim, como representante de uma exclusiva época, posto que os dramas de Eduardo Marciano se adequam perfeitamente à juventude contemporânea.
Isso justifica Humberto Werneck ter comentado certa vez, em uma entrevista, que Sabino estaria escrevendo uma nova história com o mesmo personagem de O Encontro Marcado, Eduardo Marciano, como conta Ubiratan Brasil, em matéria publicada no jornal Estado de São Paulo, por ocasião dos 80 anos do escritor. Se verdade ou não, é provável que nunca venhamos a saber, já que o desejo de Sabino foi de que nada fosse publicado em seu nome após sua morte — decisão, ao que dizem, registrada em cartório. O que parece certo, no mais, é que muitos ainda venham a “ser” Eduardo Marciano, ao lerem sobre o famoso encontro a que ninguém foi além dele mesmo, Eduardo.
***
Com sua morte revivi na lembrança muito do que aprendi com sua literatura. Sabino me ensinou que no cotidiano reside o que há de mais mágico nesta vida; nele que está contida a sensibilidade da existência humana. E ao compreender a profundidade de sua amizade com Otto, Campos e Hélio, que durou uma vida inteira e agora perdura ainda mais — onde quer que estejam a tomar seus uísques! — também quis viver “paixões de amizade” como a deles, expressão com a qual Pellegrino uma vez bem caracterizou a relação que mantinham. Quis também estudar no Afonso Pena e no Ginásio Mineiro, e não se imagina o quão feliz fiquei ao saber que o escritor de minha admiração tinha a mesma afinidade com a ribalta que eu, ou seja, nenhuma.
Coincidências... a vocação furtiva, que faz de um homem um escritor que nunca escreveu nada. Imaginem então como me senti ao descobrir, violão nas mãos, o baterista Fernando, com suas vassourinhas afiadas! Como então não tomar uísque pela madrugada, ouvindo jazz, olhando a cidade pela janela, e pela manhã descobrir estar com o dobro de incertezas do começo da noite? Como não virar a noite trabalhando nesta crônica, e no fim da madrugada, sentir que ainda sim não consegui encontrar a palavra certa? Sim, pois como Sabino e Eugène Ionesco, não sei o que estou escrevendo aqui — escrevo justamente para ficar sabendo. Faço também perguntas, pois não tenho sequer uma resposta: é provável que a maioria delas tenha sido enterrada neste adverso outubro, mês de nascimento, mês de morte.
Comecei a aceitar meu Deus depois de entender que se Deus e a Verdade não estiverem juntos, é possível e justo escolher Deus à Verdade, e não há porque sofrer por isso. Descobrir também estes dias, ao contrário do que eu esperava, que em A Chave do Enigma não existe resposta alguma, e sim um outro Sabino, com as mesmas dúvidas permeadas por alguma resignação adulta.
***
Antes eu escrevia motivado exclusivamente na esperança de um dia ouvi-lo dizer: “É, até que está bom...”, e hoje isso não é mais possível. Com sua morte, tudo está girando em minha alma literata ainda em busca de seu lugar, e fazer literatura perdeu um pouco de seu sentido. Mas aos poucos começo a entender que mesmo tendo nascido para ser escritor, não nasci escritor, e vou ter que, como ele, aprender a sê-lo.
Certa vez, na crônica Aflições de um noivo, Fernando citou Manuel Bandeira, quando este responde a uma jovem que lhe pergunta qual conselho ele daria a alguém que quisesse se iniciar na literatura: “Apenas este: não pedir conselho a ninguém”. Aos poucos entendo isto, e chego mesmo a arriscar uma resposta ao enigma da esfinge, mesmo sob a pena de ser devorado.
A contrariar Hugo — um dos amigos que não compareceram ao encontro marcado — em sua perspectiva do efêmero da existência, talvez tudo realmente dê certo no final, como bem disse o pai do mestre, e o xis da questão esteja no fato de que realmente ainda não chegamos ao fim. É possível e provável, se tratando de Fernando Sabino — sim, estamos falando de um lugar-comum —, que nunca cheguemos. Sua obra o torna eterno.

(crônica escrita alguns dias após o fatídico 11 de outubro de 2004, dia triste para mim e para a literatura brasileira. Morria, na véspera de seu aniversário de 81 anos, Fernando Sabino, o escritor de minha predileção).

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A pronúncia da manada

A manada segue
O que segue quem lhe guia
Guiado por alguém maior
Desprezível hierarquia

Nosso grito tão indisposto
Nossa voz sem pronúncia
Som, cor, timbre
São sempre as mesmas redundâncias

Já são há séculos, séculos, séculos
E por séculos ainda serão
Na estrada triste da vida torta
Da vida triste de um alguém pagão

E são muitos alguéns
Que fazem parte desta manada
Que vivem pelo carnaval
E que esquecem do principal
A pronúncia de sua própria estrada

(normalmente minhas poesias eu mesmo declaro apócrifas, com destino certo e eterno, gaveta. Mas como o assunto se enveredou por estes lados, graças ao mundo virtual que permite um canal direto entre Belo Horizonte e Marte [ver blog Uma antropóloga em Marte], publico aqui uma renegada composição do remoto ano 2000, tempo no qual eu ainda acreditava ser poeta).